MARCIO KOGAN HISTÓRIAS DE VIAGEM

“Muito se fala sobre sua arquitetura, mas hoje vamos falar sobre seus sonhos”

Dani Pizetta

Nomadic, StudioMK27

Marcio, quero saber tudo sobre uma certa casa na Lua.

Este projeto fez parte de um concurso que nos desafiava a projetar uma Casa Nômade e resolvemos projetá-la na lua. Obviamente, com uma ideia dessas, não tínhamos a menor chance de ganhar o concurso, mas seguimos curiosos e imaginativos. Usamos como base uma estação espacial desenhada pelo escritório do britânico Normam Foster, e nela inserimos uma casa que se movimenta pela superfície lunar. Começamos com uma estética meio “Flash Gordon”, com cúpulas de vidro etc. Mas durante o processo aprendemos que existem meteoritos atingindo a lua o tempo todo, por isso, passei a buscar mais conhecimento sobre as reais possiblidades de vida por lá. Pode não parecer, mas é sério!

Em projetos como este, quais são os profissionais envolvidos?

Tudo começa com o Carlinhos, que gerencia nosso studio. Carlinhos surgiu no escritório pois sempre fazíamos as apresentações dos projetos de um jeito caótico. Aí tivemos a ideia de contratar um arquiteto com boa noção de design gráfico para fazer esta interface com nossos profissionais e organizar tudo, ou seja, ainda é meio caótico, mas agora de forma organizada.

Nomadic, Studio MK27

A lua te fascina?

Estamos voltando a ouvir falar muito dela. Sua composição é muito preciosa e o solo lunar é muito rico em energia. A poeira lunar vale uma fortuna e acho que a fascinação por esta esfera misteriosa está apenas começando.

Nomadic, StudioMK27

De volta à terra, qual a definição de casa para você?

Vivemos em tempos incertos e nossa casa passou a ser nosso mundo. O que era um lugar apenas para voltar no final do dia, virou nosso universo.

E o que tem dentro do seu universo?

Minha casa é meio casa de ferreiro… Não tenho paciência de fazer as coisas pra mim. Meu apartamento foi minha primeira obra e fica em um edifício construído no início dos anos 1980, final dos 70. É envelhecido, tem um sofá rasgado e uma Charles Eames com o enchimento saindo pra fora (rs). A casa em si é cheia de objetos “meio sem importância” que comprei em viagens. Eu adoro colecionar.

Em uma recente entrevista para a Editora Monolito, você contou que no primeiro dia de home office (em função da pandemia), você chorou. Gostaria de saber se você já está melhor?

(Risos) Sim, já estou bem melhor. Ao me ver longe do escritório e dos meus materiais, não sabia como me comunicar com as pessoas, pois quando meu time me pergunta algo eu respondo desenhando. Foi muito difícil, pois era um costume de 30 anos. Mas com calma nos adaptamos. O que fiz foi adicionar um pouco de literatura a este processo de trabalho a distância, me tornei uma espécie de escritor narrando espaços com precisão.

Ao me ver longe do escritório e dos meus materiais, não sabia como me comunicar com as pessoas, pois quando meu time me pergunta algo eu respondo desenhando

Além de arquiteto, você tem uma longa história como cineasta.

Acho que até hoje sou as duas coisas ao mesmo tempo. Mas no início da minha vida profissional não sabia se queria ser cineasta ou arquiteto. Fazia arquitetura e estudava cinema paralelamente, e tive experiências fascinantes fazendo curtas com o (também arquiteto e amigo) Isay Weinfeld. Não sabíamos onde isso ia dar e fomos filmando em Super8 e depois em 35mm, mas foi muito intenso.

E quando resolveu priorizar o arquiteto?

Depois de muitos curtas bem sucedidos, eu e Isay resolvemos fazer nosso primeiro longa metragem e foi o maior tombo da minha vida. O filme deu muito errado, financeira e intelectualmente, pois não era como um curta, que sabíamos fazer tão bem. Foi um completo desastre, pois eu já tinha meu escritório de arquitetura, uma equipe montada etc, e na época, tive que me dedicar muito às filmagens, me ausentando do studio por seis meses. Ou seja, além de ter perdido clientes e projetos, o filme não deu certo. E foi depois disso que passei a focar no meu trabalho como arquiteto.

O filme deu muito errado financeira e intelectualmente, pois não era como um curta que sabíamos fazer tão bem

Como você lida com o insucesso?

Hoje sinto que foi bom que isso tenha acontecido. Na época foi difícil, mas trago lições e muitos elementos estéticos do cinema estão inseridos na minha  linguagem arquitetônica.

Pode dar alguns exemplos do que o arquiteto herdou do cineasta?

A importância da luz e da sombra e o jeito de pensar um ambiente. A cada projeto eu penso como um roteirista e na maioria das vezes me coloco no lugar do personagem que irá viver naquele espaço. Certa vez estava projetando um estúdio fotográfico e imaginei uma modelo narrando todas as suas percepções sobre o lugar. Depois, esta narrativa virou um filme que apresenta este projeto.

Voltando ao inicio dessa conversa, tanto o cinema quanto a arquitetura mexem com nossos sonhos e fantasias…

Inclusive, tanto um quanto o outro, nos dão um certo “poder divino” (rs). Quando fico insatisfeito com algum elemento, posso transformá-lo em um piscar de olhos, posso transferir uma janela para outra parede ou mesmo derrubar as paredes. De uma forma poética o projeto vai tomando forma e pra mim, isso é instintivo.

Ao projetar não me vejo apenas como arquiteto, mas como um personagem vivendo naquele lugar

Muito se fala em sustentabilidade, quanto disso você consegue aplicar nos seus projetos?

Tenho um cliente francês que mora no Brasil e me pediu uma casa radical em sustentabilidade. Pensei que não seria possível, mas foram muitos os aprendizados. Nem mesmo na rede a casa é plugada, ela produz sua própria energia. Acabamos recebendo o Platinum Environmental Certification pelo Green Building Council. Foi a primeira vez que este prêmio veio para o Brasil.

Qual sua maior fonte de inspiração?

Eu viajava muito a trabalho (espero que logo possamos voltar a circular), pois são nestas viagens que visito obras que me identifico ou que já estão no meu repertório. Mas o Japão é sem dúvida minha maior referência. Desde os anos 1960 e 70, os arquitetos japoneses aparecem com muita força e o que gosto neles é que rompem com todos os padrões e rasgam tratados funcionalistas nos mostrando que tem algo muito maior e mais importante no trabalho. Eu gosto muito de Tóquio, já fui para Quioto e outras cidades (para contentar quem está comigo), mas por mim ficava só em Tóquio e pronto. Não gosto de ficar com malas por ai, eu gosto de ficar na cidade pois tenho o que fazer todos os dias.

“O Japão é um vício, é meu lugar favorito no mundo”

Marcio Kogan

A arquitetura japonesa funcionaria no Brasil?

Não, mas o que me inspira é sua cultura e seu radicalismo. Certa vez visitei uma vila em Tóquio com seis casas construídas em apenas 150m2 e outro com uma casa de 32m2 em um terreno de 4m x 8m, ambos projetados por Ryue Nishizawa, o mesmo arquiteto do Teshima Museum of Art. Não existe uma pessoa do mundo ocidental que aguentaria morar num lugar assim mais que dois meses, não é pra nós, precisa nascer lá, precisa ter alma japonesa, zen.

Visitar o Teshima vale a passagem para o Japão. Se não quiser ficar uma semana por lá gastando dinheiro, pode ir, entrar no museu e vir embora

Marcio Kogan

Teshima Museum of Art. Ryue Nishizawa.
Teshima Museum of Art. Ryue Nishizawa

“O projeto do museu é muito impressionante pois abriga uma obra de arte de onde saem gotinhas do chão, e uma gotinha “anda” pelo lugar ao encontro de outra gotinha e juntas formam mais gotinhas”…

Uma ideia minimalista que não tem em nenhum outro lugar no mundo. A forma como foi construído também é fascinante: colocaram uma capa de concreto sobre uma montanha e por uma abertura entrou um trator que foi escavando a montanha e o museu é o resultado do desmanche da montanha.

Algum outro lugar no mundo se conecta com você?

Foi muito sem querer que me apaixonei pela Itália. Sempre amei cinema italiano e o jeito de viver deles, mas um belo dia fui convidado para dar uma aula em Milão, e o país passou a ser minha segunda pátria. Tudo começou quando Filippo Bricolo, que é professor da Escola Politécnica ligou no studio solicitando 30/40 projetos, pois havia designado um trabalho aos seus alunos com base nas nossas casas. Depois de um tempo, eu fui pra lá pra ver o resultado, foi uma imensa surpresa, fiquei horas com os alunos. Mais tarde voltei à Itália para ministrar um workshop, no qual projetamos 3 filmes dos anos 1960 para a turma e cada aluno deveria criar casas para os personagens dos filmes. Eles tinham total liberdade no formato: poderia ser uma casa, uma poesia um refúgio. Se não tivéssemos vivendo em meio a uma pandemia, teria três viagens ao ano para a Itália para dar aula e trabalhar em projetos locais.

Foi na Itália que aconteceu que algo que mais parece sonho, mas é realidade. Depois de dar uma entrevista falando sobre minha paixão por Fellini, recebo um e-mail da sobrinha do cineasta, que foi sua assistente de direção, me convidando pra ir à Roma e conhecer a família, a casa onde Fellini morou e todas as fofocas…

Pode nos contar uma fofoquinha?

Nossa, são tantas (rs), mas lembro de uma sobre ele ter um caso com uma prostituta (ele inclusive a desenhou em muitos momentos da vida) porém, mesmo sem ter mais um relacionamento com ela, ela o perseguiu pelo resto da vida, parece que foi um inferno!

Vou deixá-lo ir, mas antes, gostaria de uma mensagem para seguir em tempos tão incertos?

Veja o filme “O Paraíso Dever Ser Aqui”, do diretor e ator Elia Suleiman. Foi meu filme predileto em 2019 e vale para os dias de hoje. Eu sinto profunda empatia por este diretor, o que ele pensa é o que eu penso.

 

Entrevista extraída da série “Histórias de Viagem”, apresentada por Dani Pizetta, que foi ao ar no dia 11/06/2020 no @Iguatemi. Para acessar a entrevista em video, click aqui.

As imagens que ilustram esta matérias foram extraídas do site StudioMK27